|
|
O Brasil vive um raro momento no qual setores público e privado estão empenhados no uso da tecnologia para aprimorar a educação |
Poucas vezes viu-se um cenário tão propício a um, digamos, ‘salto quântico’ no Brasil, no que diz respeito à educação. Há pelo menos três fortes motivos que me levam a essa certeza. O primeiro deles é o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que estabelece a informatização de todas as escolas públicas – 130 mil – até 2010, com a instalação de laboratórios de tecnologia.
A segunda razão é a iniciativa de empresas globais e instituições sérias, como o MIT, de criar computadores de baixo custo, que serão distribuídos massivamente às crianças. No momento, são três destes programas: o XO, do programa One Laptop per Child (OLPC), do MIT; o PC Classmate, da Intel; e o Mobilis, da empresa indiana Encore.
O terceiro motivo é a negociação entre o Ministério das Comunicações e as concessionárias de telecomunicações para substituir as metas obrigatórias em seus contratos de concessão por políticas de inclusão digital. O acordo permitirá que as empresas deixem de instalar os Postos de Serviço de Telecomunicações (PSTs) para prover banda larga às escolas públicas.
Temos assim um raro momento no qual setores público e privado estão falando a mesma língua, focados em atender a um segmento carente desde a origem. O Brasil ainda ostenta um índice vergonhoso de analfabetismo. E cuja carência de escolas e métodos inteligentes voltados à solução do problema requer programas complementares.
A tecnologia precisa ser usada a favor da educação e a maioria dos mortais nem tem idéia de que populações carentes do Acre, de periferias de grandes cidades ou de presídios ainda se valem de programas complementares à educação tradicional. O projeto do Telecurso, criado em 1978 pela Fundação Roberto Marinho, que fornece conteúdo educacional pela TV, é visto por 7 milhões de pessoas semanalmente, segundo uma das últimas pesquisas da instituição. Quase meio milhão está dentro das chamadas ‘telessalas’, com TV, videocassete e um orientador de aprendizagem que dá aulas em empresas, associações de bairro, igrejas etc. Educa-se com o que se tem disponível.
Imagine então o que será cada criança com um computador somente para ela, onde poderá escrever seus trabalhos, buscar fontes de pesquisa, descobrir o ilimitado mundo de dentro da web. Impossível não ficar otimista diante dessa possibilidade. Mas, como observa a especialista em educação e tecnologia Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, temos de ir além do otimismo e incorporar o entusiasmo, para transformar esse sentimento em ação.
O projeto de oferecer banda larga em vez de postos telefônicos tem de ser reconhecido por duas razões. Em primeiro lugar, banda larga já não é um luxo, é uma necessidade diante da qualidade e quantidade de conteúdo disponível na web. Imagine o que seria consultar o Google Earth durante uma aula de Geografia por meio de internet discada. Ninguém merece.
A outra razão é que os postos públicos de telefones têm pouca razão de ser. Até os famosos TUPs, ou orelhões, estão hoje sendo questionados. Como observa o ex-ministro das Comunicações Juarez Quadros, da Orion Consultoria, na Europa, os telefones públicos estão deixando de existir em alguns países, tamanha a expansão da rede móvel.
Dados da Câmara e-net mostram que apenas 3% da população brasileira tem banda larga. Estamos atrás de outros países vizinhos, como Chile e Argentina. E muito aquém de outra nação que deu seu salto na década passada, a Coréia do Sul, onde 27% da população tem banda larga. Como lembra o diretor executivo da Câmara e-net, Gerson Rolim, a banda larga é recurso fundamental para que a tecnologia tenha o papel de instrumento de capacitação, ou seja, educação, treinamento de uma mão-de-obra mais antenada com o mundo que o Brasil começou a conquistar. “Dentro de três a cinco anos todos os fundos de investimento do mundo estarão no país”, lembra Rolim. Isso porque o Brasil está prestes a ganhar o investment grade, chancela para atrair recursos. Sem uma população preparada para usufruir desses investimentos que seguirão para o setor produtivo, não há conta que feche.
É certamente um desafio enorme. “Tudo é muito novo. É o único país que fará esse trabalho em grande escala”, diz Maria Elizabeth Almeida, que também é professora do programa de pós-graduação em Educação e Currículo e Departamento de Computação da PUC de São Paulo, que participa também do grupo assessor do projeto Um Computador por Aluno (UCA), criado pelo governo federal.
Temos pela frente três anos para que esse programa de tecnologia aplicada à educação crie raízes. A chance de ele ser diferente dos incontáveis projetos brasileiros com iniciativa e sem ‘acabativa’ – principalmente quando se mudam os governos, e se interrompem as boas idéias anteriores – é que as comunidades por ele beneficiadas se apropriem desse ganho, que é, acima de tudo, legítimo. Aí sim, vão defendê-lo com unhas e dentes. Maria Elizabeth afirma que a proposta vem com uma capilaridade, através da qual ele rapidamente pode atingir o compromisso previsto com as escolas.
E vale lembrar que no momento em que as operadoras apóiam e incentivam este programa elas garantem também seus futuros consumidores em todas as classes sociais. Ou seja, todos têm interesse de criar uma nova cultura, um novo patamar de discussão. Que seja daqui para cima, ainda que por um altruísmo egoísta.
Carla Jimenez é jornalista, subeditora do Canal Rh


