Tecnologias complementares ou concorrentes?
Qual será a tecnologia de banda larga que vai dominar as próximas gerações de redes móveis? Ninguém tem ainda a resposta, mas duas delas começam a despontar na escala de interesse da indústria e das operadoras. A tecnologia de terceira geração, ou WCDMA, e o WiMAX ensaiam uma disputa que pode repetir a queda de braço vista nas redes de segunda geração, nas quais o GSM e o CDMA brigaram pela preferência do mercado. Ainda é cedo para se anunciar o vencedor e até mesmo para saber se haverá um, mas fornecedores e operadoras começam a escolher suas armas. A boa notícia é que os dois lados podem sair ganhando, pois a tendência é de que as tecnologias se complementem, e não concorram diretamente entre si.
A terceira geração (3G) chega com a vantagem de ser uma tecnologia madura, já implantada em escala na Europa, com uma grande variedade de terminais a preços baixos e farto leque de fornecedores. “É uma tecnologia com histórico, serviço, cliente e estatística”, como define o gerente de novos negócios da Oi, Sérgio Tigre.
O WiMAX ainda não tem nenhuma grande operação que sirva como referência para a tecnologia, usada até hoje em operações de nicho. Mas tem a seu favor o peso de uma Sprint Nextel, terceira maior operadora do mercado americano, que está investindo US$ 3 bilhões em uma rede WiMAX que cobrirá boa parte dos Estados Unidos. “Com a adesão da Sprint, o WIMAX entrou definitivamente no jogo”, acredita o diretor de redes sem fio da Alcatel-Lucent, Edmundo Neder.
No Brasil, particularmente, as duas tecnologias devem chegar praticamente juntas ou até com alguma vantagem para o WiMAX, considerando que empresas como a Embratel, a Brasil Telecom e a Neovia já detêm licença na faixa de 3,5 GHz, apropriada para a solução. As faixas para 3G devem ser licitadas este ano, assim como novas licenças em 3,5 GHz, que devem contribuir para a disseminação do WiMAX. Com os leilões à frente, há quem defenda que a escolha por WiMAX ou 3G vai passar ao largo das vantagens e desvantagens de cada um dos sistemas. “Será tudo uma questão de disponibilidade de espectro”, diz o vice-presidente da Ericsson, Jesper Rhode. Ele acredita que as operadoras que já têm uma rede móvel migrarão naturalmente para a terceira geração, pois o upgrade sairá mais barato do que a construção de uma nova rede em outra tecnologia.
No quesito espectro, a 3G apresenta mais clareza do que o WiMAX. Enquanto a primeira tem sua faixa de freqüência definida mundialmente em 1,9 MHz/2,1 MHz, o WiMAX pode ser encontrado em 2,5 GHz, como nos Estados Unidos e na Ásia, ou 3,5 GHz, a exemplo da América Latina e da Europa. “A ausência de uma freqüência única implica perda de escala, roaming e interoperabilidade”, destaca o diretor do Yankee Group para a América Latina, Luis Minoru.
Além da divisão de freqüência, a tecnologia apresenta múltiplas versões. Pode ser encontrada no padrão fixo e no móvel. Já houve quem decretasse a morte da versão fixa, que seria engolida pela evolução da mobilidade, mas o WiMAX fixo tem garantida a sua sobrevivência por anos, na avaliação de Minoru. “Na versão fixa, o WiMAX é totalmente complementar à 3G”, diz ele. Além de servir como backhaul para redes móveis, inclusive de terceira geração, a tecnologia é vista como alternativa altamente viável para levar acesso em banda larga a regiões rurais ou com menor densidade de clientes.
Banda larga e backhaul
É justamente esta visão que tem a Oi, segundo o gerente de novos negócios do grupo. Tigre acredita que a versão fixa é ideal para levar o acesso em alta velocidade à Baixada Fluminense, uma região onde os clientes estão dispersos e não justificam o cabeamento exigido para acesso em ADSL. “O WiMAX fixo é competitivo em custo e qualidade em situações que apresentam dispersão de clientes”, diz ele. A tecnologia também deverá ser usada pela Oi como backhaul da rede GSM, à medida que a cobertura chega cada vez mais ao interior, onde a grande extensão territorial contrasta com o baixo número de clientes, tornando economicamente inviável o cabeamento. “A Oi já testou o fixo e constatou excelente disponibilidade de banda, mesmo sem linha de visada, o que é importante para a operação em uma geografia como a do Rio de Janeiro”, avalia Tigre.
A Brasil Telecom tem visão muito semelhante, com a diferença de já possuir licenças em 3,5 GHz em algumas áreas. Para o diretor de tecnologia da BrT, Dante Nardelli Júnior, o WiMAX fixo complementará a rede de acesso à banda larga da operadora, ao passo que a 3G será usada em aplicações que exigem mobilidade. “A mobilidade é um atributo cada vez mais desejado”, avalia.
Já o WiMAX móvel permanece como incógnita uma vez que os primeiros equipamentos no padrão ainda não estão plenamente certificados. Também não se sabe exatamente quanto custará os terminais móveis, aguardados para 2008. Os aparelhos de terceira geração, por sua vez, caminham para valores inferiores a US$ 100, como o modelo da LG vencedor da concorrência para o programa 3G for All, que busca a massificação da tecnologia e conta com a adesão de 12 operadoras de todo o mundo.
“Telecomunicações é um jogo que exige escala e o GSM provou isso”, defende o diretor da 3G Americas, Erasmo Rojas, que acredita na predominância da 3G para serviços de voz por causa da escala alcançada na produção dos terminais.
A experiência brasileira em 3G começa agora, com a decisão da Telemig Celular de instalar uma rede WCDMA na freqüência de 850 MHz, que ela já detém, sem necessidade de esperar pelo leilão da faixa de 1,9 GHz. Rojas explica que quanto mais alta a freqüência menor a propagação do sinal e, portanto, exige-se mais equipamentos para a mesma área de cobertura. “Assim, a 3G em 850 MHz, apesar de menor escala de equipamentos, tem menor custo para cobertura”, afirma ele. Assim como a Telemig, a Claro deve aderir ao projeto de 3G em 850 MHz, dada à disponibilidade de espectro que ela possui nesta faixa.
A escolha dos fornecedores
Assim como as operadoras, a indústria fornecedora está tomando decisões importantes sobre qual dos lados seguir neste momento de transição. Sobram argumentos a favor ou contra as tecnologias dependendo da escolha de cada um. O cenário ainda não é totalmente claro, pois alguns fornecedores ainda pendem para ambas as tecnologias ou nenhuma delas, mas muitos nomes já podem definitivamente serem associados a algum dos lados, ou a ambos.
Fabricantes como Alcatel-Lucent e Nokia-Siemens optaram por acompanhar o desenvolvimento da 3G e do WiMAX, ao passo que outros como Ericsson e Huawei foram somente para 3G. Entre os que ficaram apenas com o WiMAX figuram Motorola, Nortel e Samsung, sem contar os fornecedores de chipsets, como Intel, Toshiba e Texas.
Estas empresas travam agora uma briga de mercado pelos contratos que se avizinham. Projeção da consultoria IDC é de que os investimentos em infra-estrutura WiMAX somarão US$ 115 milhões em 2011 na América Latina, frente aos poucos R$ 24 milhões esperados para este ano. Para o analista de telecom da IDC Brasil, Brendan Conroy, a preocupação do Brasil em disseminar a banda larga como ferramenta de inclusão digital pode ser um aspecto favorável à versão fixa do WiMAX. Para que isso aconteça, no entanto, o país precisará adotar políticas públicas neste sentido.
O cenário no Brasil tenderá a ficar mais claro com o leilão das freqüências, tanto de 3G quanto de WiMAX, aguardados para este ano. Decidida a questão de quem fica com qual espectro, ambas as tecnologias tendem a ser implementadas, seja de forma complementar ou não. “O conjunto de fatores que determinará o sucesso de cada rede é muito grande”, diz Neder, da Alcatel, enumerando custo da infra-estrutura, estratégia comercial da operadora, valor do terminal, receita média por usuário e até condição sócio-econômica da região coberta. A contar pelo número de variáveis, a resposta à pergunta que abriu esta matéria possivelmente só será respondida em alguns anos.