Fabricantes de torres, fornecedores de serviços de engenharia e desenvolvedores de aplicativos, entre outros, experimentam um boom com a chegada da nova tecnologia.
O lançamento das redes de terceira geração no Brasil está alavancando uma série de segmentos de negócios que trabalham direta ou indiretamente com as operadoras. Seja na indústria de torres, obras de infra-estrutura ou aplicativos para novos serviços, passando por celulares e computadores, uma onda de crescimento se avizinha na esteira da chegada das novas redes. É impossível mensurar o tamanho do bolo que a 3G está movimentando, até porque o serviço ainda é insipiente e muita coisa nova deve crescer e aparecer com a disseminação da tecnologia. Mas é certo que a terceira geração concentra a atenção das operadoras e da indústria fornecedora neste ano, apesar de ainda irrelevante em tamanho de mercado.
Só na aquisição das licenças e construção das redes são estimados investimentos em torno de R$ 13 bilhões, pelos cálculos da Associação Nacional das Prestadoras Celulares (Acel). “Apesar das redes de segunda geração continuarem existindo, a 3G concentra o foco daqui para frente, com tendência de descontinuidade das gerações anteriores”, diz o presidente da entidade, Ercio Zilli.
O movimento vem em cadeia para os fabricantes, quase todos contemplados com contratos com alguma das operadoras. “Sem dúvida, é a bola da vez”, diz o diretor de tecnologia e produtos da Huawei, Marcelo Motta. O fabricante de origem chinesa acertou o fornecimento de redes 3G para Claro, TIM, Oi e Vivo. “Nossa estimativa é de que a Huawei detém 40% das redes 3G no Brasil”, contabiliza ele, em uma projeção otimista, considerando que a Ericsson é fornecedora das mesmas operadoras, além da Brasil Telecom, com quem dividiu a contrato com a ZTE. O filão da infra-estrutura tem ainda a participação da Nokia-Siemens.
Não é só a venda de infra-estrutura que deve impulsionar os resultados da Huawei no Brasil este ano. A empresa é uma das maiores fornecedoras de modens para banda larga móvel do mercado brasileiro e aposta na 3G para alavancar as vendas. Pelos cálculos de Motta, a Huawei já vendeu mais de 500 mil modens no Brasil, tendo a TIM e a Claro como cliente. Com as novas redes, as conversas com as demais operadoras estão avançando e a Huawei aposta na produção local para ganhar competitividade. Fechou contrato para fabricação com a Flextronics e os primeiros produtos made in Brazil já estão no mercado.
O executivo evita fazer uma projeção de crescimento para a receita no Brasil este ano, mas reconhece que a trajetória ascendente registrada nos últimos anos deve continuar. A companhia passou de um resultado de US$ 310 milhões no país em 2006 para US$ 600 milhões em 2007. Motta lembra ainda que a chegada da terceira geração deve abrir novos negócios também na área de transmissão. “Com o aumento do tráfego de dados, as redes de transporte exigirão investimentos”, afirma.
Falta mão-de-obra
Com a construção e ampliação das redes, cresce também a venda de cabos, antenas e estações rádiobase. Impulsionada pela chegada da 3G, a Andrew projeta para este ano um crescimento de 15% a 20% na receita. A capacidade de produção da fábrica de Sorocaba está sendo dobrada e a empresa já reconhece que poderá ter que abrir mão de alguns pedidos durante os meses de junho a agosto, quando espera o pico de demanda para cabos, antenas e ERBs de 3G. Para evitar isso, vem intensificando as importações, principalmente da unidade chinesa. “Estamos buscando um balanço entre importações e produção local para atender aos clientes no tempo necessário e não empatar muitos recursos em estoque”, comenta o vice-presidente de vendas para a América Latina da Andrew, Sylvio Peres.
Ele estima que as redes de 3G em todo o Brasil exijam a construção de aproximadamente 10 mil sites. Este ano, a Andrew já forneceu produtos para serem instalados em mais de 3 mil deles e a projeção de Peres é chegar a dezembro com algo entre 50% e 60% do mercado, na média de vendas dos vários equipamentos. Em cabos coaxiais, por exemplo, ele avalia a participação de mercado da Andrew em 50%, subindo para 90% na linha sistemas de microondas.
O número de 10 mil sites este ano, no entanto, é controverso. Para o diretor de operações da T4U, Paulo César dos Santos, o volume não contempla apenas 3G, mas inclui também a chegada da Oi em São Paulo e da Vivo no Nordeste. “Só para 3G seria um exagero porque há muito compartilhamento entre as operadoras, sem necessidade de construção de sites novos”, diz ele. A T4U é uma das três empresas que operam no mercado brasileiro de locação de infra-estrutura básica de telecom, ao lado da American Tower e da SiteSharing. Segundo Santos, depois de certa paralisia, o mercado de torres voltou a esquentar por conta da 3G e da chegada das operadoras a novas regiões, notadamente a Oi e a Vivo. A boa notícia é que os negócios tendem a continuar em alta no ano que vem, pois as operadoras ainda estarão em processo de ampliação da cobertura.
O movimento também gera preocupações em alguns segmentos. Entre as prestadoras de serviços de engenharia para telecomunicações, começa a faltar mão-de-obra especializada, segundo o vice-presidente da Abeprest, Roberto Takashi Araki. O segmento viveu nos últimos anos um processo de concentração, no qual prevaleceram as empresas de maior porte. Agora, com o boom de serviços, as pequenas sofrem mais para manter a mão-de-obra. “Com a escassez de profissionais, há um movimento para as empresas que podem pagar mais”, afirma. A previsão da entidade é de que os negócios cresçam 25% este ano, em demanda de trabalho. “Em receita, a proporção é menor pois os preços estão muito pressionados”, diz Araki.
Banda larga
Não são apenas os fornecedores de produtos e serviços diretamente relacionados a infra-estrutura que comemoram os bons negócios trazidos pela terceira geração. A introdução da tecnologia deve fomentar todo um ecossistema de desenvolvedores de conteúdo e prestadores de serviços para atender à demanda que a nova tecnologia trará. A combinação de áudio e vídeo em alta velocidade deve fomentar uma série de aplicações que até então não eram exploradas nas redes de segunda geração. “A terceira geração viabiliza uma experiência que o usuário não tinha antes”, resume o presidente Compera nTime, desenvolvedora de serviços de valor agregado para celular, Fabrício Bloisi. De olho neste potencial, a empresa inaugurou um portal 3G, que permite as operadoras de telefonia móvel e empresas fornecedoras de conteúdo oferecerem conteúdos através de vídeo-chamada, algo exclusivo das redes de terceira geração.
Ele aposta que a comunicação por vídeo será um grande apelo para os novos serviços, assim como as redes de relacionamento como Orkut e blogs. “O conteúdo gerado pelo celular tende a crescer de maneira explosiva”, avalia Bloisi. Ele também acredita que o mobile marketing ganhará uma nova dimensão com a 3G, já que o uso de vídeos e conteúdos mais ricos tende a se disseminar com as redes de mais alta velocidade.
A banda larga da terceira geração favorecerá também o acesso por meio de outros dispositivos, como notebooks e desktops. “A terceira geração fará pela banda larga o que o pré-pago fez pela telefonia celular no Brasil”, comparou a diretora de serviços de valor adicionado da Claro, Fiamma Zarife, em apresentação no 7º Tela Viva Móvel, em maio.
Não é a toa que as projeções de venda de notebooks para este ano já embutem o otimismo com a terceira geração. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica estima que o mercado de PCs cresça 17% este ano em relação a 2006. É certo que a expansão não reflete apenas o crescimento da banda larga – fatores como as facilidades de crédito impulsionam este mercado – mas a explosão nas vendas de notebooks indica que os usuários preferem a mobilidade das redes sem fio aos desktops presos à mesa. Enquanto as vendas de desktops cresceram 5,8% no primeiro trimestre, frente a igual período de 2007, o mercado de notebooks registrou um desempenho 165% superior a janeiro a março do ano passado.
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