Chairman da Nokia Siemens para a América Latina, Aluizio Byrro, faz um balanço de 2007 e fala sobre as perspectivas para este ano.
Dez meses depois do início da operação conjunta, a Nokia Siemens avança na integração entre as duas empresas. O desafio é criar uma nova cultura, sem perder o foco no mercado. O resultado até agora tem sido positivo, de acordo com o chairman da Nokia Siemens para a América Latina, Aluizio Byrro. Ele destaca que a empresa sai fortalecida pela união de culturas tão diferentes, mas ainda há muito trabalho pela frente.
Com relação ao mercado brasileiro, Byrro destaca que a telefonia móvel concentrou as boas notícias em 2007, e diz que o país precisa superar os impasses regulatórios que impedem os avanços do WiMAX e do IPTV.
No campo das preocupações, ele destaca a concorrência predatória no fornecimento de equipamentos de redes e a pressão imposta pela valorização do real frente ao dólar, que dificulta as exportações e desfavorece o Brasil em projetos de pesquisa e desenvolvimento. Acompanhe a íntegra da entrevista.
por Marineide Marques
Telecom Online - Qual é o balanço do mercado brasileiro em 2007?
Aluizio Byrro - No início do ano passado estávamos um pouco pessimistas em relação ao mercado brasileiro. Os negócios não foram bem no primeiro semestre, mas melhoraram a partir do segundo, não só por causa da abertura de novas tecnologias como também pela retomada dos investimentos pela maioria das operadoras. Elas investiram para aumentar a cobertura, prover novos serviços e também na terceirização de serviços, como é o caso da Brasil Telecom. Eu, particularmente, fiquei surpreso com a retomada do crescimento no número de assinantes na telefonia móvel, depois da tendência de desaceleração no primeiro semestre. O que continua amarrado é o WiMAX e o IPTV, sobre os quais ainda pairam indefinições regulatórias. O WiMAX é um imbróglio regulatório que eu acredito que só vai ser resolvido com uma firme atuação da Anatel ou do Ministério das Comunicações. Tem que chamar todos os players para tentar resolver isso, pois o grande prejudicado é o assinante. A boa notícia foi o leilão da 3G.
Telecom Online - Você acredita que faltou uma atuação mais forte da Anatel para solucionar o impasse?
Byrro - A Anatel está buscando o entendimento. Isso é louvável, mas vai chegar uma hora que, na ausência de acordo, alguém terá que arbitrar. Quem pode arbitrar isso é o governo ou a Anatel, como órgão de Estado.
Telecom Online - E como foram os negócios na telefonia fixa?
Byrro - O setor continuou estagnado. O que melhorou um pouco foi a parte de serviços, até pela necessidade das empresas de reduzir o opex para compensar a perda de assinantes. As concessionárias estão perdendo assinantes e receita, não tanto quanto em outras partes do mundo, mas estão perdendo. A migração de redes TDM para NGN está ocorrendo, mas ainda de forma muito lenta. As empresas não estão acreditando que ao migrar para uma rede totalmente nova, uma plataforma IMS, terão uma economia de 20% a 30% em opex. Se estivessem enxergando isso, migrariam de forma mais veloz. Às vezes, eu me pergunto se nós, os fornecedores, não temos nossa parcela de responsabilidade por não conseguir mostrar aos nossos clientes que investir em NGN faz bem à saúde financeira deles.
Telecom Online - Há pelo menos três anos que os fabricantes defendem que a migração para NGN é inevitável, mas esta migração não veio ainda ...
Byrro - Investir em uma rede que está perdendo assinantes é complicado. Todas as grandes operadoras entraram na telefonia móvel e orientaram seus investimentos para isso, e reduziram opex. Estão usando a rede enquanto é possível. Na telefonia fixa, só o negócio de banda larga está crescendo. Todos focaram seus esforços na redução de opex e no investimento em ADSL e celular. A migração é inevitável, até porque chegará uma hora que estas redes não terão mais condições de manutenção, de tão velhas. A migração está sendo feita, mas ainda de forma muito lenta.
Telecom Online - A pressão por redução dos preços continua?
Byrro - É muito grande em todas as licitações. A pressão não é apenas por parte das operadoras, que colocam targets extremamente desafiadores, mas também pela atuação de alguns concorrentes, que agem de forma predatória, seja porque têm uma visão oportunista do mercado ou porque desejam comprar market share. Isso é péssimo para os fabricantes que pensam a médio e longo prazo. No longo prazo, você não consegue sobreviver se não ganhar dinheiro. Se você somar o Ebitda de todos os fabricantes, não dá o Ebitda de uma das grandes operadoras. Então há alguma coisa errada. A pressão de custos era, em princípio, compreensível, mas agora está exagerada.
Telecom Online - Tende a piorar para as redes de terceira geração?
Byrro - 3G é uma tecnologia que tem custo menor que 2G, por concepção. Não sei se vai piorar muito mais. Eu temo a concorrência predatória só para ganhar mercado. Há fabricantes ofertando a preços abaixo do custo.
Telecom Online - Quais os efeitos do câmbio para a Nokia Siemens?
Byrro - Quando estive com o ministro Sergio Rezende no final do ano eu falei para ele que era preciso melhorar as condições dadas para pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil. O desafio do câmbio para nós hoje é fundamentalmente em P&D, que nada mais é do que serviços locais transformados em dólar. Nosso câmbio chegou R$ 3,6 e hoje está em R$ 1,8, ou seja, 50% menos, enquanto a Argentina, por exemplo, manteve a estabilidade. O preço do homem/hora argentino que era 100 há três anos continua igual, enquanto o nosso subiu para 160. A Argentina está muito mais competitiva que nós. Se você for importar instrumentos de medição para laboratórios de P&D, a soma dos impostos é, em média, 60%. Os executivos lá na Europa acham que a gente está maluco. Temos que rebolar para evitar que projetos de P&D não sejam migrados para outros países. O câmbio afeta muito as coisas que tem conteúdo local, como serviços e P&D. Setenta por cento do que é desenvolvido em Curitiba é exportado. Em Curitiba temos 230 engenheiros: metade contratada e metade terceirizada. Esse pessoal trabalha basicamente com P&D, que fica cada vez menos competitivo com o nosso câmbio.
Telecom Online - As redes de terceira geração terão produção local?
Byrro - Continuamos com a filosofia de produzir localmente aquilo que tem volume. Se o volume e os custos locais justificarem, produziremos aqui. Senão teremos que rever, porque os clientes não estão interessados se a produção é local ou não. Em 2G temos produção local e exportação, mas está cada vez mais difícil exportar, não temos argumentos para justificar a venda externa.
Telecom Online - A integração entre a Nokia e a Siemens está concluída?
Byrro - Trabalhamos duro, mas ainda temos muito desafios pela frente, como a fusão das culturas sem perder o foco no mercado. Este é o maior desafio para as corporações que fazem uma fusão de grande porte como a Nokia Siemens: conseguir criar uma cultura própria, e não apenas unir as duas, criar ferramentas próprias e, ao mesmo tempo, não perder o foco no mercado. Nós estamos conseguindo. Não perdemos mercado na América Latina e a integração está avançando bem. Ouvimos cada vez menos as pessoas dizerem que eram da Nokia ou da Siemens. Quando não ouvirmos mais isso, a integração estará concluída.
Telecom Online - O que cada uma das empresas trouxe de mais forte para a joint venture?
Byrro - A Siemens sempre foi muito forte na parte de processos e tem uma longa tradição de conteúdo local, pois está aqui há mais de 100 anos, enquanto a Nokia está há menos de dez anos. É perfeitamente compreensível. A Siemens trouxe um grupo de pessoas com muitos anos de casa. Eu mesmo acumulo 35 anos de empresa. A Nokia é uma organização fortemente focada no cliente e ela trouxe isso para a Nokia Siemens. Trouxe também um grupo jovem e uma cultura mais leve. As diferenças são naturais, até porque uma carrega uma história mais ligada ao setor de infra-estrutura e a outra é originária da área de produtos de consumo. Isso influencia a forma de atuação da empresa.
+ ping-pong Intel acredita que 2009 será o ano do WiMAX no Brasil - 27/11/08 - 12h07
O presidente da Intel do Brasil, Oscar Clarke, não teme a disseminação das redes de terceira geração. aeiou aposta em novo modelo de negócios - 27/10/08 - 09h56
O presidente da operadora, José Roberto Melo, desafia os concorrentes a apresentarem preços mais baixos A Nokia acelera para continuar na liderança - 20/10/08 - 14h48
O executivo Almir Narcizo aposta no tripé aparelhos, serviços e parcerias com as operadoras para consolidar sua posição. Nextel: o desafio de manter o crescimento face à concorrência das celulares. - 19/09/08 - 12h07
O presidente da operadora, Sergio Chaia, acredita que ainda há muito espaço para crescer, enquanto aguarda o leilão da banda H.

