Para o diretor-geral do maior portal brasileiro, Paulo Castro, a internet caminha para as massas, enquanto a TV paga tende a ser de nicho.
A convergência das mídias – TV, internet e celular – nunca esteve tão presente nos portais da web e a tendência é de que isso cresça cada vez mais, com uma mistura de modelos de negócios adequados a cada público e a cada conteúdo. Para o diretor-geral do portal Terra, o maior da internet brasileira, Paulo Castro, o caminho da web rumo às massas é irreversível e as redes de terceira geração devem contribuir para disseminar ainda mais o acesso e fazer com que a internet pelo celular seja uma realidade, como a TV pela internet já é.
Em entrevista ao Telecom Online, ele conta que alguns programas já têm audiência maior pela internet do que pela TV por assinatura. Os anunciantes começam a perceber o fenômeno, tanto que a participação da internet no bolo publicitário ultrapassou a da TV paga pela primeira vez este ano.
E não deve parar por aí: a chegada dos celulares de terceira geração, com riquezas de features multimídia, deve levar para o mundo móvel o modelo já consagrado na web, de oferta de conteúdo baseado em publicidade. A forte participação do pré-pago na base de telefonia móvel brasileira deve contribuir para isso, embora exista espaço para conteúdo Premium que exige pagamento. Acompanhe a íntegra da entrevista.
Por Marineide Marques
Telecom Online - Como a convergência das mídias (TV, internet e celular) vem impactando a internet em geral e o Terra em particular?
Paulo Castro - Os três pilares de atuação do Terra estão muito ligados ao fenômeno da convergência. Temos a TV pela internet, representado pelo TerraTV, que é uma área na qual fomos pioneiros há mais de 7 anos. No segmento de música e entretenimento temos o Sonora, que é extremamente representativo na área de música digital e uma das iniciativas mais bem sucedidas desse mercado, baseado no modelo de assinatura. Para as gravadoras, o Sonora é uma referência. Também somos referência na compra de música para os celulares, porque a compra de música por download não avançou tanto no Brasil quanto era previsto. A terceira vertente é tudo que diz respeito a celulares, que é uma extensão do que a gente já faz na internet. As coisas estão se confundindo porque o celular não é só uma extensão do portal, mas também um dispositivo de acesso. Acredito que, por alguns anos, teremos uma mistura de modelos: um no qual serão criadas aplicações sob medida para os celulares menos sofisticados e outro que se aproxima da navegação mesmo. Se eu pegar os três pilares, estão dentro do conceito da convergência. A internet é o lugar onde as diversas mídias convergem. Notícias, rádio, séries e filmes estão indo para a internet. Estamos criando alternativas à distribuição, não somos uma ameaça à mídia tradicional. As empresas que detêm conteúdo audiovisual estão percebendo que a internet é mais uma oportunidade. Coisa que a indústria de música levou muito tempo para perceber e perdeu espaço para a pirataria.
Telecom Online - O usuário está acostumado com o conteúdo gratuito na internet. Isso muda na internet móvel?
Castro - Apostamos no fenômeno de conteúdo gratuito suportado por publicidade. O TerraTV é um modelo aberto, gratuito, no qual o usuário escolhe o que quer ver e quando. Quem oferece isso são os anunciantes. Existe espaço para conteúdo premium, que seja vendido, mas mesmo no negócio de música as duas coisas são válidas. Temos rádios abertas, nas quais o usuário não seleciona o que quer ouvir, e aí vale o modelo de publicidade, e temos o acesso direto a uma obra específica, pela qual ele deve pagar. No caso do Sonora, é cobrada uma assinatura. No caso de séries, filmes e esportes, o modelo é baseado em publicidade.
Telecom Online - E como transferir isso para o celular?
Castro - O negócio de publicidade no celular ainda é insipiente, mas eu acredito que ele vai crescer muito. O modelo da internet pode se repetir no celular, mas teremos que equacionar mais um componente. Você tem o patrocinador, a empresa que está fazendo a agregação do conteúdo, no caso o Terra, o licenciador do conteúdo e a operadora. Especialmente nos celulares mais avançados, que têm mais recursos multimídia, isso tende a prosperar e os modelos tendem a coexistir. O grande mercado que eu vejo é de conteúdo aberto e baseado em publicidade. Existe muita oportunidade. Do conjunto de mais de 120 milhões de usuários no Brasil, aproximadamente 1 milhão usa smartphones. Esse mercado deve crescer muito, mas ainda assim será uma fração do todo. A grande maioria dos usuários terá celulares mais simples, que permitem ver vídeos e fotos, mas sem todos os recursos, como terceira geração. Outro fator que pode limitar o modelo de assinatura é a questão do pré-pago. No Brasil, 80% da base está no pré-pago, o que abre espaço para o modelo baseado em publicidade, no qual um gol, por exemplo, é oferecido por um patrocinador.
Telecom Online - A publicidade é tão bem aceita no celular quanto é na internet?
Castro - No TerraTV, os episódios de séries, por exemplo, são antecedidos por comerciais. É o mesmo modelo da TV e também há banners de anunciantes ao lado. No celular isso não será possível. Devemos ter uma vinheta, tipo oferecimento da empresa X, e depois o assinante poderá assistir ao conteúdo.
Telecom Online - Qual o impacto da chegada das redes de terceira geração?
Castro - A 3G será decisiva porque melhora a qualidade de acesso ao conteúdo, além de criar um mercado para dispositivos melhores. O fato de ter mais banda aumentará a demanda por dispositivos melhores. E com um aparelho melhor, o assinante tende a usar mais o aparelho. Pesquisas mostram que ao migrar para um iPhone o mesmo usuário usa de 10 a 20 vezes mais o serviço de dados.
Telecom Online - Isso torna as parcerias mais importantes?
Castro - Já temos parcerias com grandes empresas nacionais e estrangeiras que detêm conteúdos de interesse. O desafio é estender essas parcerias para permitir também que se ofereça o conteúdo no celular. Nem sempre isso é possível. Neste momento, ainda não é possível, por exemplo, oferecer um episódio de Lost para o celular. Teríamos que transformá-lo em pílulas de conteúdo. Há empresas nos Estados Unidos que já fazem isso e a estratégia até desperta mais o interesse pelo episódio completo, que pode ser visto na web ou na televisão. Tem que ser uma abordagem integrada. Não dá para se pensar numa ação isolada.
Telecom Online - Temos isso no Brasil?
Castro - No Brasil já tivemos isso associado a eventos esportivos. No ano passado, fizemos isso com os Jogos Pan-Americanos e em 2006 com a Copa do Mundo. Tínhamos o direito à transmissão pela web e fazíamos versões mais resumidas para o celular. Você aborda usuários distintos ou o mesmo usuário, mas em momentos distintos. É uma forma de abordagem integrada.
Telecom Online - O conteúdo demandado pela web e pelo celular é o mesmo?
Castro - Para ser sincero, não existe massa crítica de celulares no Brasil que nos permita uma afirmação. Há uma visão de que o usuário busca conteúdos relacionados a localização pelo celular. Eu diria que se trata de uma visão relativamente míope. Veja o exemplo do Japão. Com a grande penetração dos celulares inteligentes e da banda larga houve um uso maior e mais sofisticado. Muitas vezes, as pessoas tiram o celular para fazer uma ligação mesmo estando em frente ao telefone fixo. No Japão, isso começa a acontecer com a internet. Os usuários estão se sofisticando. O desafio para as empresas é conhecer o usuário, o comportamento dele e oferecer de forma simples e atualizada aquilo que ele quer consumir.
Telecom Online - A chegada da TV digital não impacta negativamente o mercado de vídeo pela internet?
Castro - Em hipótese alguma. A TV pela internet não concorre com a TV aberta. Na web, não há grade de programação ou horário para as coisas acontecerem. Há um horário para lançamento do conteúdo, mas a partir daí o usuário consome quando bem entender. Com a TV digital no celular, o assinante assiste o que está passando naquela hora. É um instrumento fantástico de mobilidade, mas é muito diferente da oferta da internet. Eu acredito que muito em breve teremos uma audiência maior para o Lost pela internet do que pela TV a cabo. O TerraTV tem cinco milhões de usuários por mês. A TV a cabo no Brasil chega a 5 milhões de domicílios, cada um com duas ou três pessoas, o que dá 10 a 15 milhões de pessoas. As próprias operadoras declaram que os assinantes passam 60% a 70% do tempo assistindo à TV aberta. Daí, chegamos a conclusão que a nossa audiência no TerraTV é muito boa, comparada aos melhores canais fechados.
Telecom Online - Então a disseminação do DVR (digital vídeo recorder) é que teria mais impacto sobre o negócio de vídeos na internet do que a TV digital?
Castro - Eu acredito que não. No Brasil, a internet tem entre 40 a 45 milhões de usuários. No Terra, temos 25 milhões de usuários/mês, ou seja, temos o dobro da audiência da TV paga, ou até um pouco mais. Mas os números da internet mostram crescimentos exponenciais, enquanto TV a cabo cresce em proporção bem menor. Eu acredito que a TV a cabo será cada vez mais de nicho, comparada à internet. Hoje, a internet é a segunda mídia mais abrangente do Brasil, só perde para a TV aberta. Tecnicamente, tem menos audiência que o rádio, mas o rádio não permite, do ponto de vista da publicidade, uma programação para atingir 45 milhões de pessoas. Na internet, isso é fácil. Se você pegar os cinco maiores portais da internet brasileira, você atinge 45 milhões de pessoas.
Telecom Online - O segredo disso é a fragmentação?
Castro - A força que a internet tem para disponibilizar produtos e serviços não tem paridade com a TV paga. Na TV são 60 a 70 canais. Quantos são na internet? Uma infinidade. Não acredito que a TV a cabo venha a encolher. Ao contrário, ela deve crescer, mas será uma coisa de nicho, enquanto a internet será cada vez mais de massa.
Telecom Online - A expansão da banda larga ainda impõe mudanças aos portais ou é um processo já assimilado?
Castro - Tem impacto no negócio por dois motivos. Estamos assistindo uma expansão da oferta de banda larga, que está chegando cada vez mais a cidades de menor porte. A entrada do 3G vai ajudar ainda mais. E temos outro aspecto que é o crescimento da banda por usuário. Temos ofertas de até 30 mega, como o da Telefônica no bairro dos Jardins. Quando contabilizamos os acessos totais da internet, percebemos que 80% deles são feitos por banda larga. Este usuário navega mais. Os acessos feitos fora da residência também são em banda larga, sejam em cafés ou lan houses. Isso aumenta a oportunidade para conteúdos multimídia. O desafio é entender o comportamento deste usuário, pois estamos indo cada vez mais para as massas. Não são mais os early adopters ou o pessoal mais técnico como era no início da internet multimídia.
Telecom Online - Qual a taxa de crescimento registrada pelo Terra?
Castro - O crescimento tem sido muito bom no TerraTV. Em dezembro do ano passado registramos 24 milhões de vídeos vistos, ou streaming. Em abril deste ano o número já saltou para 40 milhões. O Terra tem 2,4 milhões de assinantes, que é uma base importante e nos posiciona como a maior empresa do setor. Mas não trabalhamos só para eles, porque a oportunidade de mercado é maior que isso. Acredito que a internet deva crescer mais na classe C, que não necessariamente pagará por uma assinatura.
Telecom Online - E o anunciante? Ele está atento a essa mídia?
Castro - Eu também sou presidente do IAB (Interactive Advertising Bureau), que congrega os grandes portais e as agências de publicidade online. Tivemos no ano passado 46% de crescimento no investimento online. Foi a mídia que mais cresceu, atingindo o dobro do segundo colocado, que foi o cinema. No primeiro trimestre deste ano, a internet repetiu o melhor desempenho, crescendo algo em torno de 30%. Pela primeira vez, a internet superou a marca da TV paga em volume de recursos recebidos. Isso já deveria ter acontecido há muito tempo, considerando que temos uma audiência maior. A internet recebeu 3,2% do bolo publicitário e a TV a cabo 2,8%. A tendência continua sendo de crescimentos galopantes, porque ainda achamos muito pouco, dada a representatividade da internet e a audiência, além de permitir uma segmentação geográfica que nenhuma outra mídia oferece.
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